MUSEU DE ARTE DE S√O PAULO - Assis Chateaubriand
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Vista da exposi√ß√£o Semana do √≠ndio Karaj√°, no segundo andar do MASP, organizada pela Funai em comemora√ß√£o √† Semana do √ćndio, 1984.

SEMIN√ĀRIO: HIST√ďRIAS IND√ćGENAS

22 e 23 de junho, das 9h às 17h30

O semin√°rio Hist√≥rias ind√≠genas √© marco de um programa que reintroduz as culturas ind√≠genas no Museu. Ao longo de sua hist√≥ria, o MASP organizou diversas exposi√ß√Ķes com objetos e registros de comunidades ind√≠genas localizadas no territ√≥rio brasileiro: Exposi√ß√£o de arte ind√≠gena (1949), Arte karaj√° (1984), √ćndios Yanomami (1985) e Arte ind√≠gena kaxinaw√° (1987). No entanto, e a despeito de ter sediado tantas mostras, o MASP n√£o chegou a constituir, at√© hoje, uma cole√ß√£o pr√≥pria. Vale acrescentar que ainda n√£o existe no Brasil um museu que tenha como pol√≠tica estabelecer di√°logos entre pr√°ticas e produ√ß√Ķes culturais ind√≠genas com obras provenientes de diferentes origens e per√≠odos. Nesse sentido, o MASP ‚Äď mantendo o seu compromisso de constituir-se como um museu aberto e plural na abordagem das mais variadas manifesta√ß√Ķes de cultura visual ‚Äď acredita na import√Ęncia de se estabelecer uma discuss√£o mais ampla e aberta sobre essas ‚Äúhist√≥rias‚ÄĚ.


A partir de diferentes perspectivas, o seminário pretende apresentar e discutir a riqueza das culturas materiais e imateriais indígenas, suas filosofias e cosmologias e as possibilidades de se trabalhar com esses universos no contexto expositivo e museológico.


CONVIDADOS

Ailton Krenak, Aristóteles Barcelos Neto, Claudia Andujar, Davi Kopenawa, Edson Kayapó, Els Iagrou, Joseca Yonomani, Luís Donisete Benzi Grupioni, Luisa Elvira Belaunde, Lux Boelitz Vidal, Milton Guran, Pedro de Niemeyer Cesarino e Sandra Benites.


INSCRI√á√ēES PRESENCIAIS

ASSISTA A APRESENTAÇÃO

Quinta, 22 de junho

10h-10h30
INTRODUÇÃO


10h30-12h30
EDSON KAYAP√ď
Muitas hist√≥rias ind√≠genas: a hist√≥ria hegem√īnica sob suspeita

A produ√ß√£o da hist√≥ria ind√≠gena deve romper com a perspectiva euroc√™ntrica e com a tend√™ncia homogeneizante, bem como considerar a diversidade de povos e tradi√ß√Ķes, tanto no passado quanto no presente. De igual modo, deve observar e compreender a din√Ęmica pr√≥pria da organiza√ß√£o sociocultural destes povos, para analisar e perceber o entrela√ßamento de diversos aspectos socioculturais em converg√™ncia: cosmologia, produ√ß√£o de artefatos para uso cotidiano, rituais e rela√ß√Ķes socioambientais, entre outros. A palestra buscar√° dar visibilidade e audibilidade a ‚Äúoutras hist√≥rias‚ÄĚ ind√≠genas, historicamente silenciadas e/ou pouco conhecidas na academia e na sociedade brasileira.


ARIST√ďTELES BARCELOS NETO
Artes ind√≠genas da Amaz√īnia: repensando o di√°logo entre cole√ß√Ķes

A entrada das artes ind√≠genas no cen√°rio internacional de arte contempor√Ęnea teve um impacto importante na renova√ß√£o do perfil curatorial de museus de antropologia e de hist√≥ria, em especial na Oceania e Europa, e permitiu uma inusitada aproxima√ß√£o entre antropologia e hist√≥ria da arte. As artes ind√≠genas da Amaz√īnia t√™m uma visibilidade ainda muito pequena em ambos os processos. Um dos desafios para a cria√ß√£o de novos sentidos para as artes ind√≠genas da Amaz√īnia e a renova√ß√£o das heran√ßas culturais que elas representam √© a aproxima√ß√£o entre antigas cole√ß√Ķes etnogr√°ficas de cultura material, especialmente as dos cinco principais museus antropol√≥gicos do Brasil, e as artes contempor√Ęneas ind√≠genas. No conjunto dessas cole√ß√Ķes, h√° um outro tipo de cole√ß√£o ainda pouco conhecida: a de desenhos ind√≠genas sobre papel. A apresenta√ß√£o discutir√° como essas cole√ß√Ķes, que historicamente antecedem a emerg√™ncia das artes contempor√Ęneas ind√≠genas na Amaz√īnia, podem ser colocadas em di√°logo com dois outros tipos de acervos que s√£o tratados, no Brasil, de maneira fundamentalmente separada.


PEDRO DE NIEMEYER CESARINO
Objetificação e visualização nas artes ameríndias

A apresenta√ß√£o tratar√° de refletir sobre os dilemas relacionados ao estatuto dos objetos e das formas de visualiza√ß√£o nas artes amer√≠ndias, tendo em vista os potenciais conflitos com as estrat√©gias ocidentais de exibi√ß√£o e cole√ß√£o. O que implica a produ√ß√£o de um objeto nas ontologias xaman√≠sticas? Em que medida objetos se distinguem e se relacionam com a composi√ß√£o da pessoa e da corporalidade? Qual √© o estatuto da imagem a√≠ produzida, bem como os seus crit√©rios de acesso, circula√ß√£o e dura√ß√£o? Uma vez direcionados para o campo de produ√ß√£o art√≠stica, para o seu regime espec√≠fico de criatividade e de institucionaliza√ß√£o ‚Äď marcado pelo estatuto da obra, do autor e do p√ļblico ‚Äď, como podem se transformar os pressupostos originais relativos a imagens e objetos?


Mediação: Renato Sztutman (Universidade de São Paulo).




14h-16h
AILTON KRENAK
Uma história distintiva!

Uma hist√≥ria distinta envolve a rela√ß√£o dos povos ind√≠genas com a produ√ß√£o cultural ou fazer cultura no Brasil. Em especial pela grande diversidade representada por estas culturas t√£o d√≠spares e dispersas pelo territ√≥rio brasileiro. Pertencentes a mais de cinco matrizes lingu√≠sticas, guiados por cosmovis√Ķes e leituras de mundo plurais, com pr√°ticas e ritos pr√≥prios, esses povos constituem uma verdadeira constela√ß√£o de ‚Äúhist√≥rias‚ÄĚ que est√° refletida na cria√ß√£o de objetos plenos de sentido. Objetos materializando sentidos, vis√Ķes de mundos que s√£o informados pela heran√ßa cultural desses povos, distintamente entre si e radicalmente opostos ao sentido de produ√ß√£o do objeto de arte no mundo ocidental ‚Äď para o branco. Informar um debate sobre a produ√ß√£o cultural ind√≠gena no Brasil obriga a olhar onde est√° este imenso territ√≥rio no continente e sua implica√ß√£o com os povos vizinhos na Bol√≠via, Peru, Col√īmbia etc., onde desde o in√≠cio do s√©culo 20 e mesmo antes j√° se constitu√≠ram invent√°rios e mesmo cole√ß√Ķes completas, assim como acervos de arte ind√≠gena.


CLAUDIA ANDUJAR
Ajuda! Estamos pedindo ajuda

A fotografia surgiu na minha vida como uma linguagem e como uma necessidade de transmitir o que via e sentia, aprendendo a conhecer o Brasil e seu povo. Sempre curiosa e irrequieta, procurei uma linguagem com potencialidade de entender o outro. No Brasil, encontrei a fotografia como meio de comunica√ß√£o com seu povo. Nasci na Su√≠√ßa, mas fui criada na Hungria. Sem d√ļvida minha fotografia √© marcada pelo meu passado, um passado de guerra com anos inesquec√≠veis do nazismo de exterm√≠nio de minorias, incluindo a morte de meu pai com sua fam√≠lia, por serem judeus. Foi esse repert√≥rio que acabou definindo minha trajet√≥ria. √Č atrav√©s da imagem que cheguei a me conhecer e a entender o amor que nutro pela vida, de querer penetrar e captar o ser humano no seu √≠ntimo; uma imagem que acaba de se refletir em mim.


MILTON GURAN
Frente a frente consigo mesmo

Os povos indígenas estão entre os temas mais fotografados no Brasil desde sempre. No entanto, na imensa maioria dos casos, o produto dessa documentação diz mais sobre aqueles que produziram as fotos do que sobre aqueles que foram fotografados. Em outras palavras, apesar de a imagem representada ser efetivamente a de um indígena, a forma de representação acaba dizendo mais sobre a cultura de quem fez a foto. Desde meados do século passado, quando as revistas ilustradas e os jornais chamaram para si a apresentação dos indígenas de forma mais abrangente, a situação se agravou, até pela maneira extensiva e intensiva com que os povos indígenas passaram a ser representados na mídia em geral. A partir da minha experiência pessoal, pretendo problematizar a questão da representação do outro que tão facilmente pode se contaminar com a representação de si.


Mediação: Rodrigo Moura (MASP)




Sexta, 23 de junho

10h30-12h30
ELS LAGROU
No caminho da miçanga: uma experiência curatorial, de pesquisa e de constituição de acervo qualificado

O projeto de pesquisa, a constitui√ß√£o de acervo qualificado e curadoria para a exposi√ß√£o intitulada No caminho da mi√ßanga: um mundo que se faz de contas (Museu do √ćndio, 2015) ser√£o objeto de reflex√£o para esta apresenta√ß√£o. O projeto nasceu de minha pesquisa com os Kaxinaw√° do rio Purus, cujos cantos rituais revelavam o alto rendimento cosmol√≥gico das contas de vidro enquanto materializa√ß√Ķes de rela√ß√Ķes complexas com alteridades m√ļltiplas, desde o Inka canibal, destino p√≥stumo dos mortos, √†s diferentes frentes de nawa, brancos, vindo de terras long√≠nquas carregados de contas de vidro para trocar. A mi√ßanga √© item onipresente na arte corporal dos povos ind√≠genas e tinha sido, at√© ent√£o, muito pouco documentado. O projeto contou com a colabora√ß√£o de pesquisadores ind√≠genas, antrop√≥logos e linguistas de diversas institui√ß√Ķes no pa√≠s e no exterior e explorou, atrav√©s da an√°lise de ritos, mitos e narrativas de grande n√ļmero de na√ß√Ķes ind√≠genas, como a conta de vidro conecta mundos vis√≠veis e n√£o vis√≠veis, permite pensar a chegada dos brancos na vida dos ind√≠genas e revela uma poderosa est√©tica amer√≠ndia de pacifica√ß√£o do branco


LUX BOELITZ VIDAL
O grafismo indígena

O poder das representa√ß√Ķes gr√°ficas, enquanto formas coletivas, prov√©m, em parte, de sua presen√ßa tang√≠vel e das imagens que veiculam e dos conhecimentos que revelam. A experi√™ncia cotidiana e os valores tradicionais se tornam, pela express√£o gr√°fica, uma linguagem visual compartilhada. Todas as artes ind√≠genas, e o grafismo em particular, se apoiam em conven√ß√Ķes formais para representar os objetos, eventos, seres, processos e rela√ß√Ķes sociais. Enquanto sistema de comunica√ß√£o e express√£o visual, a arte gr√°fica possui tamb√©m uma fun√ß√£o de mem√≥ria social. Ela √© ao mesmo tempo repeti√ß√£o de motivos e de estilos que definem cada cultura e a associa√ß√£o de temas, materiais e t√©cnicas que expressam a criatividade de cada indiv√≠duo. Estas manifesta√ß√Ķes gr√°ficas tamb√©m refletem o momento hist√≥rico vivido, incluindo os desafios e as modifica√ß√Ķes exigidas pela percep√ß√£o individual das mudan√ßas e a tradi√ß√£o a partir da qual o artista controla sua pr√≥pria vis√£o e se afirma enquanto representante de seu povo.


LUISA ELVIRA BELAUNDE
A pele da √°gua: O kene Shipibo-Konibo e suas transforma√ß√Ķes contempor√Ęneas

Os grafismos realizados pelas mulheres Shipibo-Konibo da Amaz√īnia peruana cobrem a superf√≠cie dos corpos e dos artefatos com redes ou ‚Äúcercas‚ÄĚ de desenhos chamados kene. Esta apresenta√ß√£o examina as t√©cnicas visuais de produ√ß√£o e percep√ß√£o do kene e suas conex√Ķes com no√ß√Ķes ind√≠genas de luminosidade e pele. O uso de tra√ßos com diferentes cores e espessuras, contidos em m√ļltiplas molduras, cont√≠guas ou superpostas, resulta numa complexa experi√™ncia perceptiva onde as redes de desenhos na superf√≠cie de um corpo se conjugam √†s caracter√≠sticas tridimensionais do seu volume, gerando efeitos de anima√ß√£o. A pele assim desenhada aparece como um espa√ßo profundo onde o olhar pode penetrar e viajar. Tamb√©m examina as mudan√ßas visuais recentes surgidas com a apari√ß√£o de novas formas de pintura ind√≠genas, em que os grafismos das mulheres s√£o combinados √† figura√ß√£o.


Mediação: Regina Muller (Unicamp)




14h-16h
SANDRA BENITES
Ore Arandu (nosso conhecimento guarani): sobre Nhe√™ ‚Äď esp√≠rito-nome

Nesta apresenta√ß√£o, abordarei minha experi√™ncia como educadora nas escolas de Tr√™s Palmeiras durante sete anos. Havia desafios constantes e tentativas de colocar em pr√°tica quatro princ√≠pios obrigat√≥rios pela Constitui√ß√£o de 1988: educa√ß√£o diferenciada, espec√≠fica, bil√≠ngue e comunit√°ria conforme a educa√ß√£o escolar ind√≠gena. Existem conflitos entre dois mundos, o qual chamo de ‚Äúolhares distorcidos das escolas sobre a educa√ß√£o guarani‚ÄĚ, pois os processos de ensino e aprendizagem s√£o diferentes. As maiores dificuldades do sistema escolar √© respeitar as diferen√ßas e executar as especificidades.


LU√ćS DONISETE BENZI GRUPIONI
Das escolas para índios às escolas indígenas: mudando o eixo de uma história de longa duração?

A institui√ß√£o escolar √© uma velha conhecida dos povos ind√≠genas, presente desde os primeiros tempos da coloniza√ß√£o. Nas √ļltimas d√©cadas, em virtude do reordenamento constitucional ocorrido em toda Am√©rica Latina, que implicou uma amplia√ß√£o do reconhecimento dos direitos dos povos ind√≠genas ‚Äď em especial a garantia de territ√≥rios tradicionais e a valoriza√ß√£o de suas identidades diferenciadas ‚Äď, consolida-se a proposta de uma educa√ß√£o escolar intercultural, ancorada em no√ß√Ķes como diversidade, diferen√ßa, especificidade, bilinguismo e interculturalidade. A escola ind√≠gena passa a constituir-se como um novo espa√ßo de enuncia√ß√£o cultural, de pertencimento √©tnico e de afirma√ß√£o pol√≠tica. Nesse processo, novos sujeitos foram constitu√≠dos, bem como novas pol√≠ticas p√ļblicas foram formuladas pelos Estados Nacionais. Em sua implementa√ß√£o, elas t√™m oscilado entre pol√≠ticas de inclus√£o e pol√≠ticas diferenciadas. Estaria em curso uma mudan√ßa de paradigma na rela√ß√£o do Estado Nacional com os povos ind√≠genas? Ou a escola ind√≠gena ganhou uma nova roupagem, mas se mant√©m t√£o colonialista como sempre foi.


Mediação: Amilton Mattos (Universidade Federal do Acre)




16h30-17h30
Um di√°logo entre Davi Kopenawa e Joseca Yanomami