MUSEU DE ARTE DE SO PAULO - Assis Chateaubriand
2017
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Lygia Pape, A mão do povo, 1975

LYGIA PAPE
A MÃO DO POVO

Período:
2.9.2016 a 22.1.2017

No contexto de A mão do povo brasileiro, 1969/2016 o MASP apresenta um breve documentário de Lygia Papeintitulado A mão do povo. Realizado em 1974, o filme aborda o desaparecimento das tradições artesanais populares, uma preocupação presente também na mostra original de 1969.

Figura central nos grupos concreto e neoconcreto na década de 1950, com uma obra desenvolvida na tradição construtiva e na linguagem da abstração geométrica, Pape foi atraída pelo vocabulário visual e formal do popular. Esse interesse, que se intensificou na década de 1960, manifestou-se pela primeira vez quando a artista utilizou a técnica da xilogravura em sua série Tecelares, produzida entre 1955 e 1959.

Após a dissolução do grupo neoconcreto em 1963, Pape voltou­-se para o então nascente Cinema Novo. Colaborou com cineastas na criação de cartazes e letreiros para filmes como Vidas secas (Nelson Pereira dos Santos, 1963), Ganga Zumba (Carlos Diegues, 1963), Maioria absoluta (Leon Hirszman, 1964), Deus e o diabo na terra do sol (Glauber Rocha, 1964), Memória do cangaço (Paulo Gil Soares, 1965), entre outros. Muitos deles tratavam de questões sociais como a pobreza, o analfabetismo e a exploração, tendo como pano de fundo o árido sertão brasileiro.

Pape produziu e dirigiu seus próprios filmes experimentais como Wampirou (1974), Eat me (1975) e Catiti-Catiti: na terra dos brasis (1978), envolvida com o chamado cinema marginal, “um ato revolucionário de invenção, de uma nova realidade, do mundo como mudança, do erro como aventura e da descoberta da liberdade: filmes com duração de dez, vinte segundos — antifilmes”. Em 1974, dirigiu A mão do povo, que comprova o compromisso com a cultura material do povo brasileiro. Trata-se de uma questão importante para a artista que ela abordou em sua dissertação de mestrado, Catiti-Catiti: na terra dos brasis (1980), em que aponta “a miséria como um denominador comum que desencadeia o processo criativo”, mas identifica também um impulso construtivo na produção brasileira: “Reconhecemos realmente um tropismo construtivo na arte brasileira e que com facilidade refere­-se a origens no índio, no africano, no objeto reciclado do nordestino, na permanência de elementos geométricos dos carnavais, nas colchas de retalho mineiras, nas cerâmicas populares, na arquitetura espontânea de beira de praia”.

Realizado cinco anos após a exposição A mão do povo brasileiro, o filme de Pape se aproxima em título e questionamento, destacando sua participação numa discussão mais ampla sobre cultura popular em curso no Brasil nas décadas de 1960 e 1970, um contexto em que também se insere o trabalho pioneiro desenvolvido por Lina Bo Bardi na exposição no MASP em 1969, agora reencenada no primeiro andar.
Julieta González

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