Mestres do Sho trazem ao MASP
a visão contemporânea da milenar arte da Caligrafia Japonesa
A arte milenar da escrita do Japão chega ao MASP com a exposição Mestres do Sho Contemporâneo - Caligrafia Artística Japonesa, que traz 140 obras de mestres da atualidade e fica apenas 25 dias em cartaz no Museu.
Cerca de 140 obras de artistas contemporâneos do Japão estarão na exposição Mestres do Sho Contemporâneo - Caligrafia Artística Japonesa, a partir de 14 de outubro, no MASP. A mostra é composta de obras dos artistas mais famosos na atualidade, como Teshima Yukei, Kaneko Outei e Inamura Undo. Ainda como evento integrante das comemorações do Centenário da Imigração Japonesa no Brasil, a mostra fica em cartaz até 9 de novembro e reúne diversos gêneros do shodo (sho = caligrafia; do = caminho). No dia do vernissage, 21 de outubro, um dos mestres fará uma demonstração de como é feita a caligrafia artística japonesa.
Dando relevo às diversidades possíveis dentro do shodo japonês, os apreciadores da cultura japonesa tradicional terão a oportunidade única de ver reunidas obras de mestres respeitados no mundo do sho, trazidas de diversas cidades daquele país, sob a curadoria do mestre Houn Funamoto. Na mostra estarão diversas técnicas desta escrita, como o ideograma chinês em vários estilos, inclusive o abstrato; caligrafia de Kana ? letra inventada pelos japoneses; caligrafia de poesia contemporânea; entalhe sobre madeira, arte chamada de Kokuji; e carimbo artístico sobre pedra chinesa.
A caligrafia japonesa desenvolveu estilos próprios no Japão, ainda que sua origem tenha sido na China. Elevado à categoria de arte, o método de escrita absorveu expressividades diversas por meio de uma técnica que utiliza basicamente papel (washi), tinta (sumi, à base de carvão) e pincel. Esta é a segunda vez que o MASP sedia uma exposição de caligrafia japonesa. A primeira foi montada em 1975, também em parceira com o Grupo Mainichi Shimbun, que contribuiu para aumentar o interesse dos brasileiros por esta milenar arte. A parceria, no entanto, teve início dois anos antes, quando uma exposição de pinturas da preciosa coleção do acervo do MASP foi levada pela primeira vez a diversas cidades do Japão.
Texto do Curador-Coordenador do MASP, Teixeira Coelho
Imagem e linguagem
Uma exposição de Shodo num museu ocidental é sempre uma ocasião para repensar hábitos artísticos e práticas culturais. Shodo, se isto não for diminui-lo, é linguagem e imagem intimamente associados. Linguagem que vira imagem, imagem que é linguagem. Na arte ocidental, essa montagem de duas coisas para nós distintas tardou a ocorrer e, quando o fez, representou quase sempre um questionamento à arte, algo que não existe no Shodo. Os cubistas serviram-se de fragmentos da linguagem como um suplemento à imagem, sem valor especial em si mesmos. Os dadaístas inseriram-na em suas composições como forte instrumento de contestação à arte da época. Foi preciso esperar pelos conceitualistas, a partir dos anos 60 do século passado, para que a linguagem assumisse lugar e função destacados na arte ocidental - e outra vez como sinal de contestação à arte preexistente. Mesmo assim, ou por isso mesmo, esse recurso não deixou de ser visto por muitos críticos como sinal de forte crise na arte, que se mostraria, exatamente por usar esse recurso, esgotada. Dupla crise, na verdade, desse ponto de vista: crise da imagem, que não mais bastava a si mesma, e da linguagem, que não conseguiria mais dizer coisas com sentido fora da arte e que, na arte, o fazia ainda menos.
No Shodo, inversamente, imagem e linguagem vêm uma em auxílio da outra, uma complementa a outra, sem que nem uma nem outra contestem o que for. Seria possível dizer que os ideogramas kanji, de que o Shodo com freqüência se serve, já são em si mesmos, em qualquer circunstância, imagens de arte e que o Shodo apenas intensifica e magnifica esse aspecto. É verdade. Mas há um outro aspecto da cultura japonesa que fascina o olho e a mente ocidentais: a recusa em estabelecer categorias firmes que colocam certas coisas de um lado da linha (seja ela qual for) e outras, do outro lado. Assim, no Japão, lenda e história, imaginário e realidade, arte erudita e arte popular, mau gosto e bom gosto, imagem e linguagem parecem estar, do ponto de vista ocidental, de um mesmo lado. A globalização, que antes se chamava internacionalização, introduziu algumas brechas nesse sistema nipônico e algumas categorias firmes se criaram por lá também, erguendo barreiras onde antes não havia nenhuma. É o tributo que paga ao ocidente. Mesmo assim, esse mundo japonês ainda é, para o ocidente, em larga medida um outro mundo. Um mundo que não deixa de lembrar o mundo helênico de Homero e da Ilíada ou da Odisséia, onde essas distinções tampouco existiam tão marcadamente mas que já foi esquecido. Assim, ver outra vez essa convergência entre imagem e linguagem é repensar hábitos culturais.
Não que o enfoque japonês seja melhor ou pior que o ocidental, ou vice-versa. É diferente, e é o quanto basta, se não fossem outras coisas, numa exposição como esta, armada em pleno ano de comemorações do centenário da imigração japonesa para o Brasil. Ver de outro ângulo, ver desde outro ponto de vista: disso é feita a arte e é o que vale a pena buscar nesta mostra, para além da beleza intrínseca do que nela se verá.
Apresentação de alguns dos artistas cujas obras estarão expostas:
KANEKO OUTEI (falecido)
Fundador do movimento contemporâneo do sho, criou um novo estilo escrevendo poesia com caligrafia artística. Produziu obras com caligrafia chinesa antiga. Recebeu em 1966 o Prêmio Ministro da Educação, Prêmio Instituto de Arte do Japão em 1967, Honra ao Mérito em 1987 do Imperador Japonês, e Condecoração Cultural do Governo Japonês em 1990.
TESHIMA YUKEI (falecido)
Estudioso da escrita antiga, pesquisou a arte de escrever 1 ou 2 ideogramas. Participou da Bienal de São Paulo em 1950, recebendo o prêmio Ouro; em 1958 recebeu o prêmio máximo na Exposição Internacional em Bruxelas; ganhou Prêmio Mainichi de Arte em 1968; recebeu do Imperador o prêmio Honra ao Mérito em 1982.
INAMURA UNDO
É o artista japonês mais famoso da atualidade, sendo conhecido mundialmente. Expôs em 1975 no MASP e virá a São Paulo na ocasião da abertura da exposição. É conselheiro máximo da Associação Mainichi de Shodo e membro de honra da comissão organizadora da Exposição Mainichi de Shodo.
MATSUI JORYU
Famoso por suas obras escritas em estilo 1 ou 2 ideogramas. Recebeu vários prêmios e condecoração do governo japonês.
UEDA SORYU
Internacionalmente conhecido, desenvolveu um novo estilo de caligrafia. Recebeu condecoração do governo japonês.
UNO SEKISON
Pioneiro do estilo vanguarda, desenvolveu a caligrafia em estilo abstrato. Recebeu vários prêmios e condecoração do governo japonês.
KUMAGAYA TSUNEKO
Caligrafia estilo Kana. Foi professora de caligrafia artística da atual Imperatriz do Japão, Michiko, quando ela era princesa. Recebeu vários prêmios e condecoração do governo japonês.
| Exposição | Mestres do Sho Contemporâneo - Caligrafia Artística Japonesa |
| Realização |
MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand |
| Local |
MASP - Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand Av. Paulista, 1578 - Cerqueira César - São Paulo - SP |
| Estacionamento |
Garagem Trianon - Pça. Alexandre Gusmão Progress Park - Avenida Paulista, 1636 |
| Abertura | Vernissage para convidados, 21 de outubro. |
| Período | De 14 de outubro a 9 de novembro de 2008 |
| Horário |
terça-feira a domingo e feriados, das 11h às 18h; quinta-feira até 20h. A bilheteria fecha com uma hora de antecedência. |
| Ingresso | R$ 15 (inteira) e R$ 7,00 (estudante), gratuito para menores de 10 anos e maiores de 60 anos. |
| Dia Gratuito | Todas as terças-feiras entrada gratuita até as 18:00 horas |
| Serviço Educativo | Agendamento de grupos (escolas e outros) 2ª a 6ª das 9h00 às 17h00 - (11) 3283-2585 |
| Ass. Imprensa |
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